Quais foram as diferenças entre as Inquisições?

A Inquisição moderna, diferentemente da medieval, contava com estruturas fixas e um corpo hierarquizado de agentes em atividades permanente. A de Castela e Leão, fundada por iniciativa da coroa, atuou na Espanha e em suas colônias da América Latina, nos países Baixos e em regiões da Península Itálica sob domínio da monarquia hispânica sem maiores problemas de adaptação. Só foi abolida em 1834.
A portuguesa, estabelecida em 1536, na sequência de difíceis negociações desencadeadas pelo rei D. João III, vigorou nos territórios de Portugal e de seu império pluri continental, desde Macau, no extremo oriente, até o Brasil. Foi extinta em 1821.

A romana foi fruto de reorganização em 1542, durante o pontificado de Paulo III, com a criação da Congregação Romana do Santo Ofício. Teve jurisdição na Península Itálica, e já em 1965 passou a designar-se Congregação para a Doutrina da Fé, modificando seus propósitos e práticas.
Havia diferença entre as três. A portuguesa não teve lastro medieval a precedê-la, ao contrário das outras. Embora alguns inquisidores franciscanos e dominicanos - tivessem sido nomeados pelo papa, não há registro de sua atuação.
A natureza dos tribunais era distinta. Os ibéricos tinham uma aparência híbrida, com fortes vinculações e dependências em relação a coroa e ao sumo pontífice, o que foi usado para garantir certa independência, em especial no caso português. Em Roma , a congregação era exclusivamente dependente do papado. No caso espanhol e romano, os confrontos entre os bispos e inquisidores foram mais fortes e recorrentes, enquanto em Portugal houve de um modo geral, grande cooperação e complementariedade entre eles.
Todas tinham como objetivo principal eliminar as heresias e preservar a ortodoxia do catolicismo romano. Mas elas se concentravam em grupos distintos. A portuguesa centrou sua atividade na perseguição aos CRISTÃOS NOVOS JUDAIZANTES, e assim se manteve até 1773, quando foi abolida pelo Marques de Pombal a distinção entre cristãos-novos e velhos. A espanhola inicialmente, teve sua mira apontada para o mesmo alvo (CRISTÃOS NOVOS-JUDEUS). no entanto os delitos quantitativamente mais significativos foram as blasfêmias e o criptoislamismo praticado pelos mouriscos. A Inquisição romana, por sua vez, apontou baterias contra o protestantismo e, em segundo plano, contra as práticas mágico-supersticiosas.
O rigor repressivo também foi diferente. Em termos de volume, a Espanha se destacou. As penas aplicadas eram variadas: Prisão, degredo, exposição pública na porta das igrejas, uso de hábito de condenado (SAMBENITOS). A que teve mais condenados foi a lusitana (cerca de 6%), seguida da espanhola (3,5) e da romana, esta muito cautelosa em aplicar este tipo de sentença.
Até do ponto de vista da historiografia, as três apresentam perfis heterogêneos. Por mais paradoxal que pareça, aquela que nos dias de hoje conta o maior número de registro é a portuguesa, é a que menos se conhece. Não há sequer uma história geral sobre o assunto.
José Pedro Paiva - É professor da Universidade de Coimbra.

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