Ter origem judaica era sinônimo de culpa?


Os " BATIZADOS EM PÉ", ou cristãos novos, eram os judeus convertidos à força ao cristianismo, com base no decreto de D. Manuel I, de 1497. Eles vieram para o Brasil desde o início da colonização e se dedicaram a várias atividades, tanto rurais como urbanas. Foram pequenos agricultores, senhores de engenho, artesões, médicos, advogados, mercadores, donos de pequenas lojas, soldados e até padres. Exerceram cargos na burocracia colonial e estavam em todas as camadas da sociedade.
Sua integração, entretanto, nunca foi total, pois
eram portadores de um estigma, o da "pureza de sangue" - Originário dos estatutos de pureza de sangue, promulgado em 1449, em Toledo, e adotados em todo império espanhol e português, inclusive na Colônia. Por essa razão eram vistos como diferentes, além de presas fáceis para a Inquisição. Para o Santo Ofício, os cristãos novos mantinham a religião judaica em segredo. Sempre foram considerados suspeitos de heresia porque, de acordo com o preconceito, o judaísmo fora incorporado pelo leite materno, não pela escola, pelos livros ou pela tradição.
Quando processados, os cristãos novos eram obrigados a admitir suas culpas, fossem verdadeiras ou não. Aquele que não confessasse a crença na Lei de Moisés em algum momento de sua vida era considerado "negativo", pois não reconhecia seus erros. O processado precisava recorrer à memória e aceitar todas as denúncias de que era alvo em uma estranha dinâmica inquisitorial na qual as denúncias eram mantidas em segredo. Aquele que não conseguisse citar todos que o tinha denunciado seria considerado "diminuto". Ser condenado como negativo e diminuto equivalia a pena capital.
As sentenças, de modo geral. eram assim: " (...) recebem o réu (...) ao grêmio e união da Santa Madre Igreja como pede. E mandam que em pena e penitência das ditas culpas vá ao Auto Público de Fé na forma costumada, e nele ouça a sentença e abjure seus heréticos erros em forma: terá cárcere e hábito penitencial perpétuo, com confisco de bens", como está descrito no processo da ré Ana Henriques de 1713.
Desde o século XVI, a Inquisição deu continuidade no Brasil à vigilância iniciada em Portugal, verificando a religião doa cristãos novos. Mais de 600 descendentes e judeus foram presos na Colônia e enviados a Lisboa, onde foram julgados como hereges judaizantes. Desses, 22 foram condenados a morte. A maioria dos cristãos novos do Brasil foi considerada culpada de heresia.

Lina Gorenstain é pesquisadora do laboratória de estudos sobre intolerância da Universidade de São Paulo e autora de A Inquisição contra as mulheres (Associação Editorial Humanitas, 2005)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todo comentário será previamente avaliado antes do mesmo ser publicado.
Favor assinar com o seu endereço de email.
Obrigado.