O que a Inquisição veio fazer no Brasil?

Ronaldo Vainfas - Professor da Universidade Federal Fluminense e autor de Trópicos dos pecados (Nova Fronteira 20100 e organizador de Confissões da Bahia (Companhia das Letras 2005)



a Inquisição portuguesa só passou a frequentar o Brasil no final do século XVI. Entre os anos de 1540 e 1560, só houve dois casos: O de donatário de Porto Seguro, o blasfemo Pero do Campo Tourinho, e do Francês calvinista Jean de Bolés. O Primeiro foi enviado para Lisboa a ferros, e o segundo, preso pelo bispo da Bahia, que tinha jurisdição sobre heresias. Foram ocorrências isoladas e desvinculadas da preocupação maior do Santo Ofício lusitano desde a sua criação: Perseguir os cristãos novos judaizantes.


A estreia da Inquisição no Brasil ocorreu em 1591, com a primeira visitação do tribunal de Lisboa a Bahia e a Pernambuco. Justifica-se : na segunda metade do século XVI, o Brasil recebeu muitos cristãos novos envolvidos com a nascente economia açucareira. Eles viveram em paz durante décadas. Muitos continuaram a professar o judaísmo nas sinagogas domésticas, além de se unirem, pelo matrimônio, com os cristãos velhos.
A ameaça de índios na terra e de piratas no mar funcionava como força de coesão.
Tudo mudou com a chegada da visitação  que integrou nova estratégia inquisitorial, em tempo de União Ibérica, voltada para o Atlântico hispano portugues. A estreia do Santo Ofício no Brasil amedrontou mais do que prendeu os cristãos novos, embora tenha destroçado a sinagoga de Matoim, no recôncavo Baiano. Em todo caso, deixou um rastro deletério, rompendo a solidariedade cotidiana que unia cristãos velhos e novos da colônia.
Ao longo de século XVII, outras visitações deram seguimento à ação inquisitorial, reforçada, no século XVIII, pela consolidação de uma rede de familiares e comissários, além da justiça eclesiástica, que pinçava suspeitos de heresia em suas visitas diocesanas. Foi esta máquina que viabilizou a inquisição no Brasil, resultando no seguinte balanço: 1.074 presos, sendo 776 homens e 298 mulheres; 48% deles e 77% delas eram cristãos novos acusados de judaizar; a grande maioria dos homens presos (62%) morava na Bahia, em Pernambuco e no Rio de Janeiro, enquanto a maioria das mulheres (54%) vivia em terra fluminense, seguidas de longe pelas mulheres da Bahia (14%).
O auge da ação inquisitorial ocorreu na primeira metade do século XVIII (51% dos presos) vinte homens e duas mulheres da colônia foram queimados em Lisboa, todos por judaizar. Dentre eles, o dramaturgo carioca Antônio José da Silva (1739)  e a octogenária Ana Rodrigues, matriarca do engenho de Matoim. A velha sinhá embarcou para Lisboa acompanhada de uma escrava e morreu no cárcere em 1593. Nem assim ela escapou da fogueira. O Santo Ofício desenterrou seus ossos para queimá-los em praça pública em auto de fé, no terreiro do paço.

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