A VER NAVIOS

A saga da viagem de 500 anos de uma família judia. 


O ano de 1496 se iniciara com um janeiro extremamente frio. A judiaria, silenciosa à noite - quando mal se ouviam os murmúrios dos judeus que se sentiam com a espada à cabeça -, via amanhecer cada dia como se uma nova esperança renascesse.


            As negociações de arrastavam, e o rei não de decidia. muitos de seus conselheiros eram contra a expulsão. Os judeus não só rendiam grandes ganhos ao tesouro Real, pelas taxas que lhes eram impostas, como ainda alimentavam o comércio, eram grandes artesões, mestres ferreiros e contribuíam poderosamente para os estudos sobre a navegação, que levaria Portugal a categoria de potencia mundial. Já a igreja pressionava no sentido da defesa do cristianismo, e da necessidade de manter a pureza da fé católica.


Mas a ambição do rei iria prevalecer. As conversações marcavam o casamento para maio (D. Manuel com a filha de Fernando e Isabel de Aragão, reis da Espanha) e a infanta não dava sinal de vida. A carta de 21 de junho dos reis católicos foi definitiva:

"Y que sabe que , al tiempo que trataua este casamento la princessa pidio por condiçion que el rey huuísse de echar todos los hereges de sus reynos y señorios antes que ella entrasse en ellos, y esto mismo pidio el tiempo que se fizo el desposorio; y no lo queria hazer hasta fuessen salidos, sino que todos deximos que no lo detouisse por aquello, que antes ella fuesse a Portugal, seriam echados los dichos hereges; y con esta condiçion fizo ella el desposorio. Y acahiecio que dos tres dias depues de hesso, a tiempo que no perdia el ahun azer el desposorio ni la condiçion que en el se hauia pedido, vino nueua como el hauia mandado que saliessen de sus reynos todos los dichos hereges."

          D. Manuel ainda esperaria seis meses, mas o destino dos judeus estava selado. Pouco faltava para que desabasse a tempestade. E dentre os trovões que estremeciam os céus, caiu finalmente o raio que haveria de incendiar os judeus, banindo-os definitivamente da vida portuguesa. Cinco de dezembro. Dia aziago. Marca indelével na história judaica.
E foi com o coração sangrando, o sangue a gelar-se nas veias, que a família Vivas, aos prantos tomou conhecimento do Édito de expulsão. D. Manuel não mais os queria em Portugal. Na voz dos arautos, e nos avisos colados às portas das judiarias, a terrível sentença: 

"Determinamos, e mandamos, que da publicaçam desta nossa ley, e determinaçam, por todo mês d'Outubro do ano de nascimento de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e sete, todos os judeus, e mouros forros que em nossos reinos ouver, se saiam fóra delles, sob pena de morte natural e perder as fazendas para quem os acusar..." 

          Propôs D. Manuel pôr-lhes navios nos portos para que partissem, levando parte de seus bens.
Casa secular, bens, ferramentas, quilos do mais puro aço, vida, tudo deixado para trás. Mester Eliaou não podia acreditar. Invocou diariamente o seu D'us para que lhe indicasse o caminho. Sair, fugir, o mais depressa possível, ou não seria tudo mais uma onda, como as muitas que já os tinha assolado? Não se arrependeria o rei? Os vizinhos trêmulos, se amontoavam. Mester Eliaou, Mester Eliaou, o que fazer?
E foi então que D'us lhe falou e revelou-lhe: " Toma tua família, levanta-te e vai. Vai à procura de outras terras. Peregrinos sereis mais uma vez"
Reuben (seu filho primogênito) revoltou-se. Ele ficaria. Era armeiro da Casa real. Indispensável. Nada lhe aconteceria. Issac, olheiras profundas, pele cinzenta, e as meninas agarravam-se ao pai. Ele ordenava, elas seguiam, iriam com ele até o fim do mundo. Os espanhóis, (judeus) cansados, em desespero, não tinham mais força nem espírito para voltar a percorrer os caminhos do mundo (haviam fugido da inquisição espanhola).

O velho inconsolável por deixar seu primogênito, não poderia, porém, ignorar o aviso divino: partir enquanto havia tempo. Arrumou suas tralhas, seus queridos livros, e, abraçando às meninas e a Isaac, iniciou a marcha para Lisboa. Para o porto. Para o mar. Para o navio que os levaria D-us sabe para onde.
Velas se enfunam, o capitão manda soltar as amarras. Todos encolhidos no tombadilho. Mester Eliaou não sabia, não podia saber. Era o último navio, mais nenhum levantaria âncora. O rei não cumpre a promessa. Não manda os navios aos portos. Deixa os judeus presos no país. Multidões agoniadas e aflitas, em desespero, esperam os navios. Não os há. Desaparecem. Esfumam-se. E todos atônitos, quedam-se nos cais, a procurar, a alongar as vistas, a ver se vinham os barcos. A desilusão e o desencanto ficaram até os dias de hoje. Ainda se usa no linguajar comum, como expressão de desalento, "A VER NAVIOS".

Das fogueiras da Inquisição às Terras do Brasil
Joseph Eskenazi Pernidji

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