Ex-Marrano retorna como Shaliach para a Espanha

Primeiro Rabino Israelense Ex-Marrano retorna como Shaliach para a Espanha






Jerusalem Post 
Mark Rebacz
Tradução: Uri Lam



Pela primeira vez desde a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, um descendente de marranos judeus que imigrou para Israel e recebeu a ordenação rabínica irá retornar para a Espanha para atuar como rabino
O rabino Nissan Ben Avraham, morador da cidade de Shiló e pai de 12 filhos, foi nomeado um novo shaliach para os marranos – ou bnei anussim - da comunidade judaica na Espanha. Nascido em Palma de Maiorca em 1957 em uma família católica praticante, seu nome de nascimento era Nicolau Aguilo.
“A religião era um assunto muito importante para minha família. Íamos à igreja toda semana e cumpríamos todos os deveres religiosos do catolicismo”, lembra ele.
Mas um dia, ao viajar com sua mãe pela Rua Jafuda (Yehuda) Cresques – nome de um conhecido cartógrafo judeu que viveu há muitos séculos em Palma de Maiorca – Nicolau apontou para a placa da rua e riu, dizendo para sua mãe, “Ele era um Xueta!” – palavra pejorativa em catalão, usada para se referir aos descendentes judeus de Maiorca forçados a se converter ao catolicismo há 500 anos. Foi então que a mãe de Nicolau virou-se imediatamente para ele e disse: “Do que você está rindo? Você também é um xueta”.
Essa revelação fez com que Ben Avraham se defrontasse com uma possível decisão de mudar de vida: abraçar a sua herança judaica, com todo o sofrimento e vergonha a ela associados, ou descartá-la por completo e continuar a praticar o catolicismo.
Ben Avraham se lembra do momento em que tomou sua decisão. “Depois de alguns meses, eu decidi aceitar o fato como ele é, e foi então que comecei a pesquisar sobre minhas raízes e a aprender mais sobre a história judaica”, diz ele.
Ele passou a ler tudo o que podia encontrar sobre judeus e judaísmo e a frequentar semanalmente a pequena sinagoga de Palma para os serviços de Shabat.
“O caminho foi longo e difícil, mas a comunidade judaica de Maiorca me tratou muito bem”, lembra ele. “Tive então minha primeira vivência de um Shabat e de cultura judaica”. 
Depois de se dar conta de que a sua melhor opção para retornar ao judaísmo estava em Israel, decidiu imigrar para Israel. Uma vez aqui, Ben Avraham foi a um kibutz religioso onde passou a estudar judaísmo e hebraico com mais intensidade. Finalmente, na primavera de 1978 submeteu-se à conversão formal ao judaísmo pelo Rabinato Chefe de Israel e assumiu o nome hebraico de Nissan, em homenagem ao nome do mês hebraico no qual se submeteu à sua própria e personalíssima revolução espiritual.
O recém-nomeado Nissan continuou sua busca por conhecimento judaico em Jerusalém, nas yeshivot Mercaz Harav e Ateret Cohanim, e depois na yeshivá em Shiló, local em que por fim escolheu para se estabelecer e constituir família.
Em 1991 Nissan recebeu sua ordenação rabínica do Rabinato Chefe, marcando a primeira vez em séculos em que um marrano alcançou formalmente o statusrabino. Agora, mais de duas décadas após ter imigrado para Israel, Ben Avraham está retornando para a terra onde ele redescobriu suas raízes judaicas perdidas.
Como shaliach (emissário) da Shavei Israel, Ben Avraham irá se revezar mensalmente entre as comunidades marranas de Barcelona, Palma de Maiorca, Alicante e Sevilha, onde irá ajudar aqueles que pretendem aprender mais sobre suas raízes judaicas. Ele ensinará às comunidades Torá, cultura e tradição judaicas, e conduzirá uma série de atividades sociais e educacionais. 
A comunidade judaica da Espanha vivenciou uma idade de ouro entre os séculos 9 e 12. Isto terminou com o início da Inquisição no século 14, quando passaram a vigorar leis antissemitas seguidas de massacres e culminando com o decreto de expulsão emitido em 1492. Diante das opções de conversão ao cristianismo, expulsão ou morte, muitos judeus optaram por se converter exteriormente, enquanto mantinham secretamente a sua identidade e estilo de vida judaicos. Esses judeus são conhecidos por muitos historiadores como marranos, embora alguns entendam que este seja um termo pejorativo que vem da palavra catalã para porco. Aqueles que estão em contato com eles, porém, preferem o termo hebraico bnei anussim, que significa “os descendentes dos forçados”. 
De acordo com Michael Freund, fundador e presidente da Shavei Israel, nos últimos anos tem havido um despertar entre os bnei anussim para descobrirem mais sobre sua identidade. 
Freund atribui este interesse despertado a dois fatores principais. Primeiro, Espanha e Portugal eram governados por ditaduras até meados dos anos 1970, mas uma vez transformados em democracias, o poder da igreja diminuiu e as pessoas começaram a se sentir mais livres para explorar suas identidades. O segundo fator é a Internet, que tem desempenhado um papel importante no restabelecimento dos bnei anussim às suas raízes judaicas. O que antes exigia pesquisa em biblioteca pública ou aproximar-se de uma comunidade judaica para obter informações, pode agora ser realizados na privacidade de suas próprias casas. Além disso, por meio da Internet está se desenvolvendo uma rede de bnei anussim em que pessoas com históricos familiares e experiências semelhantes podem interagir e esclarecer muitas de suas questões.
Segundo a Shavei Israel, os judeus de todo o mundo deve abraçar seus irmãos judeus perdidos. Se for feita uma conexão entre bnei anussim e judeus, diz Freund, isso irá beneficiar o turismo de Israel, bem como a luta contra o antissemitismo. Da experiência pessoal, diz Freund, “Quando as pessoas descobrem que têm raízes judaicas, eles desenvolvem uma afinidade em relação a Israel e ao judaísmo, mesmo quando permanecem católicos”. 
De acordo com algumas estimativas, ainda há dezenas de milhares de b'nei anussim em Portugal e Espanha, e há quem diga que os números chegam a 100 mil. No Brasil, que abriga a maior concentração de b'nei anussim, alguns acadêmicos falam em mais de três milhões de pessoas.

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