A Oração de Ester


Buscando disfarçar a preferência pelo judaísmo, os criptojudeus viam-se obrigados a abandonar certas cerimônias marcantes de sua profissão de fé em favor de práticas menos conhecidas  ou delatoras de sua real devoção religiosa: as circuncisões eram sustituídas pelas orações e vigílias domiciliares; o consumo de certos tipos de alimentos tradicionais, por outros menos delatores; a guarda pública de certas datas e festas, como o Rosh ha Shaná (ano novo judaico) ou o Shavuot, pelos jejuns.

Com o mesmo intuito, celebrações que no judaísmo tradicional ocupavam posiçoes de menos destaque passavam, por serem menos acusadoras de sua origem "maculada", o tema central da resistência marrana, como foi o caso do Jejum de Ester - rainha judia que escondia suas origens do próprio marido, vivendo, como criptojudeus, da dissimulação.

A "Oração de Ester" se tornou, assim a "prece marrana por excelência . É bastante significativo o fato de ser uma mulher heroína dos cristãos-novos, e o exemplo de Ester se repetiria constantemente devido às necessidades dos criptojudeus: "Aprendi  desde a infância no seio da minha família que foste Tu Senhor, que escolheste Israel entre todos os povos e nossos pais entre todos os antepassados, para sua herança perpétua". Ou ainda, comparando o sofrimento da rainha judia com a perseguição que sofriam dos cristãos velhos e a constante dissimulação: "a mim dá-me coragem, Rei dos deuses e dominador de toda autoridade. Põe em meus lábios um discurso atraente quando eu estiver diante do leão, muda seu coração, para ódio de nosso inimigo, para que ele pereça com todos os seus cúmplices". Não é de se admirar que as palavras de Ester fossem transformadas numa espécia de hino criptojudaico e sinônimo de resistência ao catolicismo coercitivo.
Ângelo Adriano Faria de Assis - A Inquisição em Xeque

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